Eu estava
sentada na janela de um ônibus sem sal a caminho do trabalho, novamente. Cena
que se repete todos os dias nos capítulos de minha vida de proletária
brasileira. Só mais um dia estressante e comum, sem orégano nem pimenta. Mais
um dia em que meus olhos estressados deixam passar todos os detalhes tão ricos
de minha cidade e atêm-se nos milhares de problemas, como a quantidade absurda
de lixo no chão.
Tinha tudo
para ser mais um dia, até que eu olhei para fora da janela e avistei dois
meninos sujos e maltrapilhos brincando. Ficou claro que tratavam-se de
moradores de rua. Os dois pareciam não se importar com sua condição, muito
menos com seu estado estético. Brincavam na rua com aquele brilho no olhar que
parece que transcende o que o coração sente. Interagiam de uma forma sincera
que eu, pelo menos, não avistava há anos. Uma forma sutil que parece que
desapareceu, atualmente. Brincavam com pedras, galhos e terra, nada de
brinquedos caros. Entretanto, a felicidade que sentiam, pelo menos naquele momento,
não parecia custar o valor de um brinquedo ou sequer ter preço algum. O cenário
de sua brincadeira era a rua imunda, iluminada por um sol morno e colorido.
Cercados de caixas de papelão e jornais velhos, os dois (irmãos, talvez?) transbordavam
um olhar inocente que ilustrava confiança mútua e até, arrisco dizer, amor.
Pode parecer
ridículo ou pedante, mas essa cena me arrancou um sorriso logo pela manhã (e
quem me conhece sabe do mau humor que eu costumo ter de manhã). Afinal, para
que serve o mundo senão para apreciar as pequenas coisas? Esse dia tinha tudo
para ser só mais um dia, e foi mais um dia. Porém, essa pequena e rápida cena
me fez refletir sobre o valor que damos às pequenas coisas. Não há desculpa
para não tentar ser feliz, por mais que não se possua nada, não tem desculpa
para não trazer o coração recheado de coisas boas e sentimentos positivos. O
verdadeiro valor das coisas encontra-se no coração.

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