quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Ideologia

É extremamente natural e compreensível que em épocas de crise haja uma certa polarização política entre a esquerda e a direita. No entanto, essa polarização tem se mostrado formada basicamente por pessoas jovens e, na maioria das vezes, movidas mais pela emoção do que pela razão.
Que a juventude sempre esteve engajada politicamente, também, não é nenhuma novidade, apesar de alguns veteranos bradarem aos quatro ventos que os jovens, atualmente, não se interessam por nada de importante. Porém, um fenômeno curioso a ser observado é a falta de discernimento, de clareza e de análise cuidadosa da história que os jovens têm demonstrado. É possível que minha opinião esteja no tempo errado, pois não posso garantir (tampouco acho que seja verdade) que os integrantes do movimento Caras Pintadas, por exemplo, estivessem com conhecimentos históricos mais profundos ou, pelo menos, claros ao protestarem contra o então presidente. Entretanto, tenho notado que, nas redes sociais, a manifestação política tem se mostrado rasa, extremamente ideológica e sem um pingo de racionalidade.
Que cada um tem seu partido político preferido baseado em sua ideologia pessoal é inegável. Porém, os que estão engajados politicamente precisam ter bom senso e maturidade para entender que o mundo real não é dividido em bem e mal e que a discussão política vai muito além disso. Ora, tanto a esquerda quanto a direita possuem passados sangrentos e não louváveis (justificar mortes de inocentes pelas mãos da esquerda seria o mesmo que justificar a morte de judeus por Hitler). Não existem vilões e mocinhos no mundo real, porque todos, de alguma forma, foram corrompidos.
Existem diversos fatores que compõem a organização política brasileira, entre eles, a coalizão e a governabilidade. É possível comparar alguém que discute política sem analisar esses dois fatores, primordialmente, com uma barata virada de costas, que se debate no chão sem parar, mas que jamais chegará a lugar algum. A política, apesar de doer, vai muito além do coração. Até hoje, nunca conheci ninguém que tenha feito alguma mudança, alguma revolução e que possua um passado intacto. Faz parte da coerência e da razoabilidade ter isso em mente e não negar.
 Talvez, citar Maquiavel aqui pareça um pouco doentio ou maldoso de minha parte, “os fins justificam os meios”. Entretanto, sempre achei que Maquiavel foi injustiçado nas reproduções de sua obra. A verdade é que ele estava referindo-se de forma extremamente realista e coerente ao método político para se manter no poder, nada bonito e agradável aos olhos, muito menos aos corações apaixonados e cegos.

Analisando atualmente os intelectuais que no passado foram militantes políticos, é possível identificarmos uma maior maturidade e clareza quando se trata de ideologias políticas e conceitos de esquerda e direita que, obviamente, só foi possível graças a experiências de vida.  É claro que não pretendo aqui exigir que os jovens possuam a mesma experiência que esses intelectuais. Porém, acredito que a leitura mais minuciosa e uma análise mais cuidadosa das experiências que nossos antecessores possuíram seja a chave para construir um raciocínio político mais coerente com a realidade. Uma característica da juventude sempre foi e sempre será colocar a emoção à frente da razão. Mas, talvez, o caminho que levará a alguma mudança esteja na análise crítica e neutra da sociedade e não só no coração.

5 comentários:

  1. Mas barbaridade tchê.
    Tu já sabe o que eu acho.. :)

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  2. Deveria ter compartilhado tua opinião com o público, aqui!

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  3. Massa o texto. Pero...


    Política vai bem além do coração, mas o que seria da política sem o coração?
    Na verdade a ampla maioria das organizações políticas hoje já respondem este meu questionamento. Trinta e duas legendas registradas no TSE, sendo que destas tantas te garanto que somente 1/5 possuí coração. O resto, minha cara, é resto. Sua existência é explicada por aquela prática do tal "mercado eleitoral", onde barganham seus segundos por secretarias e cargos no governo. Pratica da direita? Pode ser. Mas não curto generalizar. Não digo que a direita seja má, sangue de barata, tipo aquelas aeromoças que te olham feio sempre quando se pede um copo d'água atrás do outro. Não! Ela se organiza, tem suas pautas. Não se alinha comigo, gosto de deixar claro, mas também tem suas bandeiras.
    Anyway, teu texto não fala sobre isso e não tem porquê eu falar sobre isto também. É mais sobre ideologia.
    Chegue, por exemplo, na militância rural ou na militância urbana e diga que os fins justificam os meios. Que o MST, que não deixa de ser um movimento histórico qual compõe o PT, vai ter que se sujeitar à políticas da tal ruralista goiana que representa Tocantins porque "um dia, quem sabe, talvez, haja a hipótese de pensarmos na possibilidade de vir a discutir a reforma agrária". Não só o MST, mas os movimentos dos "povos da terra". Ou melhor, diga pra galera que se organiza na periferia ou se organiza por mais moradias populares se sujeitar ao Kassab, famoso pelas favelas queimadas em Sampa.
    Né?
    Se os fins justificam os meios só falta dar um passo para o aparelhamento dos movimentos não com o estado, mas sim com o interesse do capital. Sorte nossa que aí entra o papel da ideologia ;)
    Se não fosse ela, o que eu acredito, o que outros acreditam, a barca teria desandado de vez.

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  4. Fia, responderei aqui pra valorizar teu blog.
    Na política não há espaço vazio. Se tem alguém lá que "não vale uma nota de um real rasgada", é porque ninguém melhor se colocou para ocupar tal lugar.
    Meio romântico isso, né? Senti um loop nessa discussão hehe.
    Hoje faço a seguinte leitura. Cá em terras tupiniquins quem pode pode quem não pode chora. Nossa política é guiada por interesses (p.e. o escândalo do tal lava jato). É uma oligarquia burguesa que quer manter seu status a custa do estado. Tanto é que a mídia lança o nome de cada político da situação envolvido no escândalo com cpf, foto, endereço, etc. Já os grandes diretores das empreiteiras... malemal se houve um nome.
    Vejo hoje como única forma de fiscalização do estado a participação popular de movimentos organizados. E eles, querendo ou não, tem ideologia. Sentiu o loop mais uma vez?
    Esta já é uma forma de ocupar espaços. Vejo a eleição como mais um processo, não o objetivo. Nesta linha toda a discussão de pautas construídas ao longo do período se coloca nas eleições e ali são validadas.
    Política tem que amar e ser amada. A lá adolescente que descobriu o primeiro beijo. Só assim que evoluiremos quanto sociedade :)

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  5. Não acho, pessoalmente, que ideologias cegas vão conseguir fazer alguma mudança.

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