quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A espera

Aquele que não deveria responder, respondeu.
O relógio continua tiquetaqueando, há uma hora mais ou menos eu tenho a impressão de que ele está dentro da minha cabeça, e seus barulhos só aumentam a maldita dor que eu estou sentindo.
Mas não me desespero, espero. E espero mais e mais, nem sei quanto tempo faz que eu espero, já que quebrei o relógio em um ataque de raiva. Sei que ele não tem culpa, mas sinto como se esse infeliz estivesse anunciando meu infortúnio e minha agonia.
Trouxe um copo d'água para o lado da cama, olho meu rosto refletido no espelho, "já fui mais bonita", penso eu, mas pouco me importa, você disse que me achava bonita. Ora que bobagem, afinal, não se pode ouvir aquilo que não existe não é?
E essa droga de som ecoando na minha cabeça, sua voz que não me deixa em paz, da onde veio se você nunca existiu? De quem é essa voz dizendo que precisa de mim então? Se você precisa de mim, por que não veio me procurar ainda?
Volto a cabeça ao travesseiro, abafando minhas lágrimas e meus gemidos de pavor.
Se eu me sinto sozinha? Que diferença isso faz agora?
Me levanto e jogo o copo d'água sobre minha cabeça. A dor alivia com a água fria.
Vou até o banheiro tateando as paredes, as lâmpadas estão todas queimadas, assim como minha vida. Procuro no armário e tomo o vidro de calmante inteiro. O efeito é rápido, sinto meu corpo caindo, a perda da lucidez.
Pronto querido, minha espera acabou. Desse lado eu consigo te ver, talvez te tocar. Mas você não está feliz, está acorrentado. Por isso você não viria para mim?

sábado, 1 de outubro de 2011

Esta manhã eu olhei para o céu

Esta manhã eu olhei para o céu.
Estava chovendo, logo, não pude ver nada. Falei com você, mas você não me respondeu, parece que adivinha o quanto me irrita quando você me ignora desse jeito. Mas eu não demonstrei, continuei sorrindo, peguei sua mão e fiquei acariciando-a, comentando com voz doce como aquele céu estava lindo, sorrindo, e gargalhando entre as falas.
De novo, você não me respondeu nada. Saí de mim e derrubei tudo que havia em cima da mesa, e você continuou lá, parado, sem mudar a reação do rosto.
Teus olhos me causaram arrependimento por um segundo, voltei, coloquei a sua cabeça no meu colo, e fiquei alisando teus cabelos, beijando-os de vez em quando, e cantando devagarinho e em tom suave uma canção de ninar. Você? Continuou sem dizer palavra. Lágrimas brotaram de meus olhos, lágrimas que escorriam e iam caindo sobre tua cabeça, onde você estava? Eu precisava de você naquele momento!
Levantei e abracei você o mais forte que eu consegui, você pareceu não se importar, estava fazendo isso há umas horas, não se importando com nada, apenas concordando passivamente com o corpo com tudo que eu fazia.
Meu choro aumentou, eu queria tanto te ter naquele momento, mas você não estava comigo ali, só de corpo, mas sua alma estava em outro lugar.
Talvez explique o que aconteceu mais cedo, quando você mais uma vez passou sem falar comigo por horas. Mas meu amor, se me acha louca, parar de falar comigo não é o remédio. Num súbito momento de aflição, peguei aquele pó que há tempos eu tinha guardado e te fiz beber sem saber, o que você fez, passivamente, como TUDO o que você faz. Só agravei o problema, dessa forma é que você parou de falar comigo, permanentemente.
Me desculpa! Eu ainda te amo, não posso viver sem você. O que eu fiz foi te matar primeiro, mas minha morte viria em seguida. Sem você, eu não conseguiria viver por muito tempo.
Desesperei-me e coloquei teu corpo sem vida sobre minha cama, lágrimas ainda brotando de meus olhos, deitei minha cabeça sobre o teu peito, e abracei-te pela última vez. Peguei o copo que você havia tomado e bebi o resto que lá havia. Agora nós estaríamos juntos para sempre. Ouviu? Para sempre meu amor. Você não teria mais motivos para não falar comigo.
Enquanto o dia terminava, e o céu ia escurecendo, nossos dois corpos estavam sobre a cama.
Sem vida, mas juntos para sempre.
Esta manhã eu olhei para o céu.