sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Entre galhos e papelão, um coração.

Eu estava sentada na janela de um ônibus sem sal a caminho do trabalho, novamente. Cena que se repete todos os dias nos capítulos de minha vida de proletária brasileira. Só mais um dia estressante e comum, sem orégano nem pimenta. Mais um dia em que meus olhos estressados deixam passar todos os detalhes tão ricos de minha cidade e atêm-se nos milhares de problemas, como a quantidade absurda de lixo no chão.
Tinha tudo para ser mais um dia, até que eu olhei para fora da janela e avistei dois meninos sujos e maltrapilhos brincando. Ficou claro que tratavam-se de moradores de rua. Os dois pareciam não se importar com sua condição, muito menos com seu estado estético. Brincavam na rua com aquele brilho no olhar que parece que transcende o que o coração sente. Interagiam de uma forma sincera que eu, pelo menos, não avistava há anos. Uma forma sutil que parece que desapareceu, atualmente. Brincavam com pedras, galhos e terra, nada de brinquedos caros. Entretanto, a felicidade que sentiam, pelo menos naquele momento, não parecia custar o valor de um brinquedo ou sequer ter preço algum. O cenário de sua brincadeira era a rua imunda, iluminada por um sol morno e colorido. Cercados de caixas de papelão e jornais velhos, os dois (irmãos, talvez?) transbordavam um olhar inocente que ilustrava confiança mútua e até, arrisco dizer, amor.

Pode parecer ridículo ou pedante, mas essa cena me arrancou um sorriso logo pela manhã (e quem me conhece sabe do mau humor que eu costumo ter de manhã). Afinal, para que serve o mundo senão para apreciar as pequenas coisas? Esse dia tinha tudo para ser só mais um dia, e foi mais um dia. Porém, essa pequena e rápida cena me fez refletir sobre o valor que damos às pequenas coisas. Não há desculpa para não tentar ser feliz, por mais que não se possua nada, não tem desculpa para não trazer o coração recheado de coisas boas e sentimentos positivos. O verdadeiro valor das coisas encontra-se no coração.