Num outro dia eu estava pensando: como vai ser minha vida daqui a uns 20 anos? Na minha cabeça, eu imaginei uma história um tanto trágica, mas bem realista. "Ano de 2030, eu tenho 34 anos. Não sou velha, mas já estou em uma idade em que em que sei que não vou mais casar com um príncipe encantado, nem herdar um cassino em Las Vegas. Mas ainda posso esperar algo como, ganhar na loteria, ou furar-me um pneu.
Fura-me um pneu. Eu desço do carro. Há uns anos, assim que descesse do carro, algum homem pararia para me ajudar. Agora, ainda pode acontecer, mas eu teria que esperar muito mais, afinal, não tenho mais o brilho nos olhos de uma garota de 19 anos, e acabo tendo que me virar sozinha.
Não sirvo para Top-model, mas também não sou daquele tipo que assume a velhice depois dos 30, e deixa sequer de arrumar-se como alguém elegante. Tenho um emprego estável, com um diploma de universidade. Tenho um pequeno apartamento, simples, mas confortável.
Moro sozinha e não tenho filhos nem marido ou namorado. Já havia tido noivo duas vezes. Na primeira, descobri que ele estava me traindo com uma garçonete de um bar próximo. E na segunda vez, quando estávamos quase nos casando, ele me confessou que gostava de homens. Mas na verdade eu não me lamento, porque intimamente, estava aliviada por não casar.
A vida é meio vazia, e acho que a única coisa que me mantém sorrindo, é a minha mente de criança. Por fora, tento me fazer parecer com uma profissional séria, e responsável, e acredito que com sucesso. Mas por dentro, a criança dentro de mim insiste em fazer piada com o cabelo de algum funionário da agência.
No meio de trabalho, ninguém comenta que nos dias chuvosos, eu sou a única sem guarda-chuva, porque adoro sentir os pingos gelados molharem meu cabelo.
Aos domingos, eu geralmente fico sentada na sala do meu apartamento, com um óculos e livro na mão, pensando que se eu fosse uma pessoa normal, nesse instante, estaria correndo atrás de filhos pela casa. E começo a rir sozinha, e quando termino, me pego chorando. Chorando por quê? Eu não faço a mínima ideia, só sei que chorar é bom de vez enquando.
Tantas coisas aconteceram durante esses 20 anos, tantos amigos perdidos, aqueles que eu tentei manter o máximo de contato possível, mas mesmo assim, acabaram se distanciando. Ganhei alguns amigos também, mas aprendi cedo que não é fácil achar alguém em que possamos confiar. E sempre acabava recorrendo ao colo quente da minha mãe quando me decepcionava com alguém.
Me apaixonei algumas vezes, mas não tive muito sucesso, afinal, sempre tive o defeito de me apaixonar por quem me desprezava, apesar de calada, eu não assumia o meu sentimento.
Eu aprendi muito com meus erros, e continuo errando. Mas a essa altura, descobri que nem sempre errar é ruim.
Nesse momento, me sinto uma pessoa extremamente segura, que sabe o que está fazendo, e aprendi que isso é resultado dos meus erros no passado. Então não me arrependo mais deles.
Às vezes fico preocupada, porque noto os dias passando tão rápido, de repente viram meses, e anos. Sinto medo de quando menos esperar, estar apenas esperando a morte chegar.Quando sinto isso, eu imediatamente começo a dançar, porque a vida é curta demais pra só ficar na vontade.
Aprendi a ser feliz, porque sou orgulhosa demais pra dar o sabor da vitória à quem me quer mal."
